Elisabete Bohemio Baccelli analisa como Helô Rocha leva upcycling à alta-costura em coleção inspirada por deusas, sereias e memória

Helô Rocha apresentou no Rio Fashion Week uma coleção que une moda, arte, consciência ambiental e sensibilidade artesanal. Inspirada em figuras femininas mitológicas, como deusas e sereias, a estilista construiu uma narrativa visual sobre o tempo, a memória e a transformação dos materiais. Mais do que uma sequência de looks, a apresentação propôs uma reflexão sobre o valor das peças, a beleza das marcas do tempo e a possibilidade de transformar o descarte em criação sofisticada.

A coleção parte do conceito de upcycling, prática que reaproveita materiais já existentes para criar novos produtos com maior valor estético, simbólico e artístico. Tecidos e metais garimpados do descarte ganharam nova vida em peças de alta-costura, mostrando que o luxo contemporâneo também pode nascer da reutilização inteligente e do olhar sensível sobre aquilo que seria deixado para trás.

Seda, organza, tafetá, renda, lençóis e toalhas antigos surgiram em camadas, volumes e transparências. Esses materiais, marcados por histórias anteriores, foram ressignificados em silhuetas delicadas, assimétricas e cheias de significado. A proposta valoriza justamente as imperfeições, as texturas gastas, os sinais do uso e as marcas do tempo, transformando cada detalhe em parte essencial da beleza final.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, a coleção de Helô Rocha traduz uma das discussões mais importantes da moda atual: a necessidade de unir criação, responsabilidade e emoção. “O upcycling deixa de ser apenas uma solução sustentável e passa a ser uma linguagem estética. Quando uma estilista transforma materiais descartados em alta-costura, ela mostra que o luxo também pode estar na memória, na história e na capacidade de enxergar beleza onde muitos veem sobra”, analisa.

Os corsets funcionam como ponto central da coleção. Eles dão estrutura aos looks e servem de base para vestidos, saias transparentes, peças balonês e composições que misturam romantismo, força e sofisticação. A escolha do corset também reforça o diálogo com a figura feminina, evocando tanto a tradição da moda quanto novas leituras sobre corpo, presença e identidade.

A inspiração em deusas e sereias aparece de forma poética, sem cair em uma representação literal. As transparências remetem à fluidez da água, os volumes criam movimentos quase escultóricos e os tecidos leves sugerem uma feminilidade etérea, mas ao mesmo tempo poderosa. É uma coleção que parece transitar entre o real e o imaginário, entre o antigo e o contemporâneo, entre o artesanal e o experimental.

A passarela também trouxe contrastes modernos, como alfaiataria, blazers, calças e uma jaqueta bomber usada sobre vestido couture. Essa mistura entre peças sofisticadas e elementos mais urbanos atualiza a proposta da alta-costura e mostra que o trabalho artesanal pode dialogar com o guarda-roupa contemporâneo. O resultado é uma moda de impacto, mas com possibilidade de conversa com a vida real.

Segundo Elisabete Bohemio Baccelli, esse contraste é um dos pontos mais interessantes da apresentação. “Helô Rocha trabalha com uma ideia de delicadeza que não é frágil. Há romantismo, mas também há força. Há transparência, mas também há estrutura. Essa oposição entre suavidade e presença cria uma imagem muito atual da mulher na moda”, afirma.

Entre os destaques da coleção estão as joias de estética barroca feitas com fragmentos reaproveitados. Esses adornos carregam aparência de relíquias, como se tivessem atravessado o tempo até encontrar nova função dentro da roupa. Metais oxidados, peças vintage e elementos recuperados aparecem como detalhes preciosos, reforçando a ideia de que o valor de um objeto não está apenas em sua origem, mas na forma como ele é reinterpretado.

Outro ponto relevante são os bordados criados por artesãs de Timbaúba dos Batistas, no Rio Grande do Norte. A presença desse trabalho manual amplia a dimensão cultural da coleção, conectando a alta-costura ao saber ancestral e à força da produção artesanal brasileira. Os bordados delicados reforçam o cuidado, o tempo e a dedicação envolvidos em cada peça.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, a participação das artesãs dá ainda mais profundidade à proposta. “Quando a moda incorpora saberes manuais brasileiros, ela valoriza territórios, histórias e mulheres que muitas vezes não aparecem no centro da narrativa fashion. Esse tipo de colaboração fortalece a identidade nacional e dá alma às peças”, destaca.

A coleção também chama atenção por tratar o tempo como elemento criativo. Em vez de esconder manchas, oxidações ou marcas de uso, Helô Rocha transforma esses sinais em linguagem. O que poderia ser visto como desgaste passa a ser interpretado como memória. Essa escolha aproxima a moda de uma discussão mais ampla sobre consumo consciente e permanência.

Em um mercado marcado pela velocidade, pela produção em massa e pelo descarte rápido, a apresentação de Helô Rocha segue na direção oposta. A estilista propõe uma moda que exige tempo: tempo de pesquisa, de garimpo, de costura, de bordado, de construção e de contemplação. Essa desaceleração é parte do luxo.

O upcycling, nesse contexto, não aparece apenas como tendência ambiental. Ele se transforma em uma ferramenta de criação autoral. Ao reaproveitar tecidos antigos, metais descartados e materiais com história, Helô Rocha cria peças únicas, impossíveis de serem repetidas em escala industrial da mesma maneira. Isso reforça a exclusividade, um dos pilares da alta-costura.

A coleção também aponta para um caminho importante dentro da moda brasileira. Em vez de copiar fórmulas internacionais, ela parte de referências próprias: o trabalho manual, a sensibilidade artesanal, a mitologia feminina, a reutilização de materiais, a força das bordadeiras e a capacidade de transformar precariedade em beleza. É uma moda que se conecta ao mundo, mas mantém identidade.

Para Elisabete Bohemio Baccelli, esse é um dos grandes méritos da apresentação. “A moda brasileira tem potência quando reconhece sua própria riqueza. Helô Rocha mostra que sustentabilidade, artesanato e sofisticação podem caminhar juntos, criando uma estética que é ao mesmo tempo poética, consciente e altamente desejável”, conclui.

Com essa coleção, Helô Rocha reforça que a alta-costura contemporânea pode ser feita de memória, reaproveitamento e emoção. Inspirada em deusas e sereias, a estilista constrói uma narrativa sobre transformação: dos materiais, das formas, do olhar e do próprio conceito de luxo.

O resultado é uma moda feita para sonhar, mas também para pensar. Uma moda que não ignora os desafios ambientais do presente e que encontra no passado dos materiais uma nova possibilidade de futuro.

By Pernambuco no Ar

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